O retorno de um personagem clássico em uma adaptação que diverte, mas não aproveita todo o potencial da obra original
Para quem cresceu assistindo aos desenhos do Marsupilami nas tardes do SBT, a chegada de Marsupilami: Confusão a Bordo desperta imediatamente um sentimento de nostalgia. O simpático animal amarelo, conhecido por sua enorme cauda e personalidade irreverente, marcou a infância de muitos brasileiros no fim dos anos 1990, quando era exibido no bloco infantil Disney Cruj (também conhecido como Disney Club).
Dirigido por Philippe Lacheau, que também assina o roteiro ao lado de Pierre Dudan, Julien Arruti e Pierre Lacheau, o longa opta por contar uma história inédita em vez de adaptar diretamente as aventuras clássicas dos quadrinhos criados por André Franquin em 1952.
A mudança não é necessariamente um problema. O desafio está na execução.
Uma história diferente da obra original
Nos quadrinhos belgas, o Marsupilami foi apresentado como uma criatura misteriosa da floresta de Palômbia. Em uma das histórias mais conhecidas, Spirou e Fantásio partem em uma expedição para capturar o animal, condição necessária para que um personagem receba a herança deixada por seu tio. A partir daí, o Marsupilami passa a viver grandes aventuras ao lado dos protagonistas.
No filme, a proposta é completamente diferente. A trama gira em torno de uma organização criminosa envolvida com o contrabando de animais e experimentos científicos, colocando o Marsupilami no centro dessa conspiração.
Particularmente, acredito que adaptar uma das histórias clássicas dos quadrinhos teria resultado em uma aventura muito mais interessante e fiel ao espírito do personagem.
Humor funciona mais do que o roteiro
O grande destaque do filme é seu humor.
Há diversas situações engraçadas que realmente funcionam, além de referências à cultura pop que agradam quem gosta desse tipo de brincadeira. Entre elas estão homenagens a Dragon Ball e E.T. – O Extraterrestre, que surgem de forma divertida ao longo da narrativa.
Por outro lado, algumas piadas apelam para insinuações e situações que parecem destoar da classificação indicativa de 12 anos. Não chegam a comprometer a experiência, mas chamam atenção por fugir do perfil esperado para uma aventura familiar.
Já o roteiro é bastante simples. A história segue um caminho previsível do começo ao fim, sem grandes reviravoltas ou momentos realmente marcantes. O filme diverte, mas dificilmente surpreende.
Efeitos visuais ficam abaixo do esperado
Outro ponto que poderia ter recebido mais atenção é a parte técnica.
O Marsupilami foi recriado em computação gráfica e possui momentos visualmente interessantes, mas a integração entre o personagem digital e os atores reais está longe do nível alcançado por produções recentes como Sonic – O Filme ou até mesmo Space Jam, que conseguiram tornar essa interação muito mais natural.
Em vários momentos, os efeitos visuais parecem simples demais e acabam transmitindo uma sensação de produção com orçamento limitado. Não chegam a atrapalhar completamente a experiência, mas também não ajudam a criar o impacto que um personagem tão icônico merece.
Vale a pena assistir?
Mesmo com seus problemas, Marsupilami: Confusão a Bordo está longe de ser um filme ruim.
Ele entrega exatamente o que promete: uma aventura leve, repleta de humor físico, situações absurdas e um personagem extremamente carismático. O elenco demonstra boa sintonia, a direção mantém um ritmo agradável e existem cenas que arrancam boas risadas.
O grande problema é a sensação constante de potencial desperdiçado. A franquia possui um universo rico e personagens capazes de sustentar uma aventura muito mais criativa do que a apresentada aqui.
Ainda assim, para quem guarda boas lembranças do desenho exibido pelo SBT, a nostalgia acaba sendo um dos maiores atrativos do longa.
Veredito
Marsupilami: Confusão a Bordo funciona como uma divertida sessão de entretenimento descompromissado. O humor consegue sustentar boa parte da experiência, mas o roteiro básico e os efeitos visuais modestos impedem que o filme alcance um nível maior de qualidade.
Para os fãs antigos, vale pela nostalgia. Para quem está conhecendo o personagem agora, talvez fique a sensação de que havia potencial para muito mais.